23/07/2018 08:06

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Rádio Pioneira com Parecis.net

Fotos: reprodução.

O Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso (MPT-MT) sediou na semana passada reunião do Fórum Mato-Grossense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos. Na ocasião, foram apresentados resultados da pesquisa “Avaliação da contaminação ocupacional, ambiental e em alimentos por agrotóxicos na Bacia do Juruena”.

O projeto teve início em 2014, sob a coordenação de equipe do Núcleo de Estudos Ambientais e de Saúde do Trabalhador (NEAST), do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), por meio de cooperação técnica com o MPT.

Entre os resultados da pesquisa estão os que indicam a presença de resíduos na urina e no sangue de trabalhadores rurais e de professores, urbanos e rurais, dos três municípios pesquisados - Campos de Júlio, Campo Novo do Parecis e Sapezal, e de produtos não autorizados para a cultura em que foram encontrados.

Somente em 2015, o uso de agrotóxicos em Mato Grosso foi superior a 150 milhões de litros – desse total, 97% foram empregados no cultivo de algodão, soja, milho e cana de açúcar. Os municípios da Bacia do Juruena foram escolhidos por estarem entre os maiores produtores agrícolas do estado: plantaram 1.6 milhão de hectares (11,7% da produção estadual) e utilizaram, juntos, 18,6 milhões de litros de agrotóxicos (12,4% do uso estadual).

Levando-se em consideração a área plantada, a população e o volume de agrotóxicos aplicado, a pesquisa revelou que cada habitante de Campos de Júlio está exposto, em média, a 606 litros de veneno por ano. Em Campo Novo do Parecis a média é de 209,4; e, em Sapezal, de 364. Em Mato Grosso a exposição média chega a 46 litros, quantidade seis vezes maior que a média nacional, hoje de 7 litros per capita/ano.

Segundo o professor Dr. Wanderlei Pignati, coordenador da pesquisa, os dados confirmam a percepção de que há um problema sério e complexo a ser enfrentado. Durante a apresentação, Pignati explicou a metodologia empregada e falou dos trabalhos já produzidos por mais de uma dezena de mestrandos e doutorandos que integram o projeto. Expôs, ainda, a sua preocupação com o fato de Mato Grosso, apesar de ser o estado que mais usa agrotóxicos do Brasil, não ter sequer um centro de referência de intoxicação aguda de agrotóxicos. Além disso, falou sobre o desafio de vencer a subnotificação. “Mato Grosso é mais subnotificado que os outros estados. Teríamos que estar em primeiro lugar no número de casos registrados, já que somos os maiores consumidores, mas não, estamos apenas em 10º”.

O procurador-chefe do MPT em Mato Grosso e coordenador do Fórum Mato-Grossense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, Marcel Bianchini Trentin, ressaltou que "um dos grupos de trabalho em atividade no fórum visa justamente encontrar caminhos para que haja as notificações das doenças e acidentes que decorrerem do contato com agrotóxicos".

Chamou atenção a linha de pesquisa que mostrou a contaminação do ar e da água da chuva e de poços artesianos de escolas da região pesquisada. Em sua dissertação de mestrado, intitulada “Agrotóxicos, vulnerabilidades socioambientais e saúde: uma avaliação participativa em municípios da bacia do rio Juruena, Mato Grosso”, Lucimara Beserra analisou e identificou os tipos e a quantidade de resíduos de agrotóxicos. O mapeamento do território indicou uma perigosa proximidade de lavouras com as escolas dos municípios, tanto na área rural quanto urbana.

Das 18 amostras de água dos poços artesianos analisados, 61% tiveram resultado positivo para agrotóxicos. Foram detectados, inclusive, resíduos dos herbicidas atrazina (0,12 µg/L a 0,28 µg/L), substância proibida pela União Europeia desde 2004, e metolacloro (0,34 µg/L a 0,63 µg/L).

Pelos padrões da Portaria nº 2.914/2011 do Ministério da Saúde, que estabelece padrões de potabilidade da água, os números estariam em conformidade com o volume máximo permitido (VMP), que hoje é de 2 µg/L e 10 µg/L para atrazina e metolacloro, respectivamente. Todavia, se for considerada a Diretiva 98/83/CE do Conselho da União Europeia, relativa à qualidade da água destinada ao consumo humano, as amostras estariam bem distantes do permitido. A Diretiva europeia estabelece 0,10 µg/L por ingrediente ativo de agrotóxico e 0,50 µg/L para a soma de todos os ingredientes ativos dos agrotóxicos encontrados em uma única amostra.