02/06/2018 08:26

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Paulo César Desidério com Marlenne Maria

O ano chegou apenas na metade, mas o brasileiro já pode afirmar que viveu um grande acontecimento em 2018: o movimento de paralisação dos caminhoneiros. Com início em 21 de maio e encerramento no dia 30, muita coisa aconteceu enquanto a classe cruzou os braços pelo país contra a elevada carga tributária imposta por meio da política de preços dos combustíveis adotada pela Petrobras com aval do governo federal. A edição da última sexta (01) do programa ‘O povo no Rádio’ recebeu o professor Raimundo França, que ministra aulas no campus de Tangará da Serra da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). O cientista político fez uma análise do movimento grevista e falou sobre características da cultura brasileira, além de tecer apontamentos acerca do contexto sociopolítico pelo o qual o Brasil se encontra desde os últimos 4 anos.

Raimundo classificou o movimento como “emblemático”, partindo do ponto de vista de que praticamente o país inteiro se atentou à paralisação com posicionamentos variados. Para o professor, a paralisação não foi esporádica e ainda é decorrência do momento vivido pelo país ainda em 2014, ano de eleição, que em seu entendimento não terminou por ainda ter sua agenda toda em pauta mesmo quatro anos depois.

“A questão dos caminhoneiros, a paralisação em si, toca num tema que é estrutural do nosso tipo de sociedade, que é o tipo de energia que nós utilizamos. Então, essa energia basicamente na sua conjuntura hoje, o combustível que move o país, é regulada assim como boa parte das commodities pelo mercado internacional. Temos um tipo de economia que está praticamente toda indexada ao dólar, então a gente sofre muito por essas flutuações externas. De um tempo para cá, na verdade, o estado tem tido pouca capacidade de intervir no sentido da regulação, porque isso para o mercado não é bom. Qualquer possibilidade de o estado tentar regular alguma coisa, o mercado não vê com bons olhos. Isso faz com que por exemplo os investidores não invistam no Brasil se eles perceberem esse tipo de ação por parte do Estado”, explica.

De acordo com Raimundo, a instabilidade da política brasileira também é um fator agravante para a força do movimento. Ele explica que se as principais demandas do país estivessem encaminhadas, o movimento não se faria necessário. O professor expôs ainda que o bloqueio das rodovias pelo país atingiu diversos setores e afetou a vida de boa parte dos brasileiros em razão da enorme dependência da economia nacional do sistema rodoviário.

“O outro problema é evidentemente político, porque se nós tivéssemos num momento em que as agendas estivessem mais consolidadas, nós não teríamos as crises que nós estamos tendo. Isso reflete especialmente em relação à paralisação. Ela é mais emblemática exatamente por isso, porque ela realmente é estrutural. Se os caminhoneiros param no Brasil, para absolutamente tudo por conta também do nosso modelo de desenvolvimento que nós fizemos essa opção, nós entre aspas. Nós adotamos um modelo de desenvolvimento atrelado às rodovias, então, basicamente, todo o desenvolvimento do Brasil ocorreu a partir disso e aí você tem toda uma cadeia em torno disso, uma total dependência”, pontuou.

O cientista político afirmou que enxerga o brasileiro se mostrando aos poucos mais atento em relação ao zelo com a coisa pública, o que historicamente ocorreu com rara frequência no país.

“Nós temos uma cultura política baseada numa cidadania passiva. Quando a gente faz pesquisa com eleitores, dificilmente eles lembram em quem votou na última eleição, inclusive. Que cidadania passiva é essa? A gente sempre espera muito do agente político e pouco de nós próprios. No nosso caso, mais ainda. Tudo aquilo que a gente condena, a gente joga no político. No fenômeno político como um tudo, buscamos um culpado. Só que quando você faz pesquisas de comportamento, por exemplo, no Brasil, acerca de nossa cultura, da ética, da virtude, as pesquisas indicam exatamente um movimento contrário, ou seja, os políticos que lá estão são um reflexo de nós aqui embaixo. A gente opera a partir do jeitinho brasileiro em quase tudo, nas relações cotidianas você contrata uma pessoa para prestar um serviço e quando ela percebe que você não tem conhecimento daquilo que ela está oferecendo, joga o preço lá em cima e assim sucessivamente”, explicou Raimundo, exemplificando que em nosso país, há uma espécie de vício de pregar virtudes no discurso e nadar contra a própria corrente nas práticas.

O especialista declarou que não é prudente condenar a política, pois os equívocos de tal atitude podem abrir brechas para que surjam o que chamou de "salvadores da pátria", que em sua opinião não existem. França ainda reforçou a influência e importância da política na vida da sociedade.

“A gente no Brasil se reporta muito aos Estados Unidos, a Finlândia, Suécia etc e tal, mas esses países têm uma cultura política baseada na virtude coletiva e que você respeita de forma bastante elementar e elevada ao mesmo tempo os direitos individuais. Só que aquilo que toca o coletivo e vai atender a todos é respeitado. No nosso caso não. Ao demonizarmos a política de um modo geral e com razão, porque a gente vê comportamentos nessa direção, no fundo a gente está atirando uma arma para nós mesmos porque não há saída fora do pacto e quem forma o pacto é a política. Todos esses elementos apontam para isso e tem a ver com a cultura política do brasileiro e a gente não se atenta a isso. Por isso que o fenômeno político é muito importante que a gente conheça. O cidadão brasileiro não conhece seus deveres e quando precisa, conhece os direitos dele”, argumentou.

No olhar do professor, a análise profunda da paralisação dos caminhoneiros passa ainda por interesses variados. Para Raimundo França, a situação ainda não se resolveu por completo e a possibilidade de uma nova greve não está totalmente descartada.

“Dentro da paralisação você tem ali os interesses mais especificamente dos caminhoneiros em si e nós tivemos também os interesses do patronato na mesma agenda. A solução que foi oferecida foi uma solução que atendeu num primeiro momento essa agenda dos patrões e boa parte dos caminhoneiros foram atendidos. Mas, boa parte também não foi atendida como gostaria. Basta ver o que ocorreu. Você tira de um canto e põe no outro. Então, isso não foi resolvido dentro dessa proposta que foi colocada e a insatisfação vem em seguida”, destacou, ao frisar que o movimento buscou várias reivindicações simultaneamente.

“Por outro lado, além dessas agendas, tem outras agendas paralelas ocorrendo também, porque você tem vários movimentos e ações com agendas que ainda não foram resolvidos e que começaram a perceber que se fizer uma paralisação mais efetiva de outras categorias o impacto vai ser maior. Claro que nós não gostaríamos que ocorresse da forma que estamos apontando porque isso traz problemas gravíssimos para o Brasil”, complementou.

Por fim, o cientista político fez um alerta para que o brasileiro analise atenciosamente as práticas de seus representantes em todas as gamas e observe melhor o que compete aos poderes Legislativo e Executivo.

“Os caminhoneiros ficaram parados praticamente uma semana e meia e no impacto dessa paralisação para o Brasil, o país deixou de ganhar quase meio trilhão de reais na produção, no PIB. Mas se a gente agisse de forma preventiva não precisava ter isso. Por isso que é importante a gente mudar a cultura política, porque são esses legisladores que resolvem isso. Em quase meio dia eles conseguiram editar uma medida provisória para resolver isso. Precisou da paralisação para resolver algo que eles precisam fazer”, concluiu.