11/05/2018 13:39

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Marlenne Maria - da Redação

A Juíza que comandou inquéritos que levaram à prisão grandes nomes no estado de Mato Grosso, falou em entrevista ao programa o Povo no Rádio da Pioneira nesta sexta-feira (11), nos estúdios da emissora.

Ela esteve acompanhada do vereador Ronaldo Quintão, que a brinda com homenagem na sessão Solene da Câmara de Vereadores hoje, entregando-lhe o título de Cidadã Tangaraense.

A Juíza, atualmente aposentada, profere palestra sobre Ética, Moral e Corrupção na tarde de hoje, às 15:00 na Câmara de Vereadores. Sobre o tema, ela disse que é preciso discutir muito estes assuntos. “O Brasil está em uma crise de inversão de valores e nós precisamos retomar alguns valores familiares, alguns valores cívicos. Precisamos retomar a nossa cidadania. Eu gosto muito, em todo lugar a que vou, de falar sobre este assunto. É extrajurídico, é extra político. É uma coisa que precisamos tratar em casa, com pais, filhos e amigos. Precisamos incorporar estes princípios e muar nossas atitudes no dia a dia”.

Sentimentos na prisão de Riva

Indagada sobre o que sentiu em relação ao caso da prisão do ex-presidente da Assembleia Legislativa, ela descreveu: “Pessoalmente me senti muito triste. A gente fica contabilizando mentalmente quantas pessoal confiaram naquela pessoa, entregaram seus votos durante várias eleições. É uma pessoa que estava quase perpetrando no poder. Muitos gostam dele porque é uma pessoa carismática. Passaram-se praticamente 20 anos desde que se descobriu que isto vinha acontecendo. Desde a operação Arca de Noé as pessoas já tinham a mesma conduta, de abrir empresas fantasmas, de fazer vendas fictícias para desviar o dinheiro da Assembleia Legislativa em benefício próprio. Isso é muito triste, porque o dinheiro desviado significa um leito a menos no hospital, remédio a menos, com muita frequência mortes de pessoas que poderiam ser salvas e estar entre a gente. Como cidadã me senti muito triste”.

Números faraônicos de valores desviados

Dr. Selma conta que nos últimos anos de sua carreira, atuando na 7ª Vara Criminal em Cuiabá com estes casos, ficou espantada com os números que existem nos processos. “Não se fala em mil, são milhões e bilhões. O que me levou a aposentar e fazer outra coisa é a frustração de ver este dano todo que foi causado para a população e chegar ao final e perceber que o processo todo não vale para nada. Porque chega no final as pessoas estão de tornozeleira, estão descansando em suas mansões, elas não estão presas”.

O dinheiro não volta

Sobre o desvio de recursos públicos, o Brasil precisa rever as penalidades na opinião de Selma Arruda.

“Sempre digo assim: se você atropela alguém na rua, você é condenado a indenizar pelo dano causado e ainda tem que pagar uma pensão para a pessoa ou para a família, vitalícia. Estas pessoas {referindo-se aos políticos condenados] roubaram, mataram centenas de pessoas e os acordos de delação premiada são feitos para elas devolverem só o que elas pegaram. Ninguém preocupa com o dano que foi causado. Se a pessoa pegou 10 milhões ela deviera ser condenada a devolver 100 ou 150 milhões, não os mesmos 10”.

A legislação precisa ser mudada

A entrevistada foi enfática quando afirmou que a classe política faz a legislação exatamente pensando em si. “Eles fazem para a coisa não dar certo. No caso da AL houve um caso em que sumiram os documentos. Estávamos atrás dos documentos para provar as fraudes e eles haviam aprovado uma lei mandando queimar os documentos simplesmente. Então é uma prova de quanto estas pessoas legislam em causa própria. A gente nem fica sabendo de determinada lei, mas chega na hora da Justiça agir, fica atrelada a esta lei. Foi isso que me fez levantar e dizer ‘vou tentar mudar essa coisa de uma outra forma’”.

Causas da corrupção

Ao responder questionamento sobre o que leva à corrupção a Juíza afirmou: “O que nos trouxe aqui foi principalmente a aceitação das pessoas em relação à corrupção, o achar graça de um político corrupto, ou aquela coisa do ‘roubou mas fez’. Esses pensamentos arraigados são muito por conta da mudança destes valores éticos e morais. Vamos relativizando e achando que pode, que está normal. Mas evidentemente que não está”.

É proposital

Ela lembrou que em todos os países do mundo existe corrupção. “Em alguns bem menos, em outros bem mais. No Brasil tem aumentado ultimamente porque é proposital esta cultura de leniência. Quando eu tinha 15, 16 anos, ficava brava quando via um programa de humor, ficava brava porque via o Jô Soares fazendo piada com alguém que machucou o dedinho e gastava quinze metros de esparadrapo para fazer um curativo. Eu ficava brava. Mas hoje as pessoas riem. É isso que faz com que seja quase normal para as pessoas. As pessoas foram durante anos instruídas a achar que isto não é grave”.

“Quanto mais pega mais quer pegar”

“A população fica cada vez com menos qualidade nos serviços e aumentam os impostos, porque é a única maneira que eles têm para aumentar o caixa”, disse ainda a entrevista.

Para onde correr?

Perguntada sobre como os cidadãos podem contribuir para mudar o atual estado de coisas, ela respondeu: “Só nós cidadãos podemos fazer isso, ao votar. Não vamos deixar para escolher o candidato na hora de votar ou porque é amigo de fulano, porque prometeu emprego ou porque te prometeu 50,00. Isso vai ficar cada vez mais caro de agora para frente. O Brasil já está quase no fundo do poço e se não acordarmos agora e votarmos de forma consciente, estamos no limite de um perigo sério de ficar como a vizinha Venezuela ou outros países que estão afundados em crises seriíssimas. Precisamos levar a política a sério e pesquisar quem são os candidatos, a governador, deputado, senador, presidente, enfim. E quando chegar lá, votar com convicção. Tenho uma impressão, por onde ano, e pelas conversas que tenho, que isto é um sentimento geral. As pessoas estão com vontade de mudar e arejar esta política.

“Sérgio Moro de Saia”

Sobre o carinhoso apelido que lhe foi dado em função de sua ação na 7ª Vara da Justiça na capital, a Juíza contou: “Já ouvi várias vezes. Até brinquei com o Sérgio Moro porque ele ouviu minha resposta dada na primeira vez que me chamaram por este apelido. Eu respondi que não sou Sérgio Moro de saia e sim, que ele é Selma Rosane de calças. Mas, por uma questão apenas de gênero. Não é falta de modéstia e ele até brincou comigo. Eu me sinto honrada com este apelido. Sérgio Moro é um ícone do poder judiciário, de força, de retidão, porque segurar a Lava Jato [Operação da PF} não é para qualquer um”.

Cidadã Tangaraense

A Juíza agradeceu a honraria do Título oferecido pelo vereador Ronaldo Quintão e aprovada pela Câmara de Vereadores. “Quero demais agradecer ao vereador pela lembrança, pela honraria. Para mim é uma honra muito grande já poder me sentir uma cidadã tangaraense. Gosto desta cidade, já vim aqui outras vezes, acho linda demais. Tem riquezas naturais maravilhosas e as pessoas também são maravilhosas. Muito obrigada”.

​​Em entrevista à Pioneira, Juíza Selma fala sobre corrupção e ética na política