02/04/2018 07:16

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Rádio Pioneira com Gazeta Digital

Mato Grosso não tem pediatras suficientes para atender cerca de um milhão de crianças com idade entre zero e 18 anos. Segundo a Demografia Médica 2018, sao 426 pediatras para todo o estado. O deficit de profissionais causa demora nas consultas, especialmente nas subáreas da pediatria. Em alguns casos, a fila de espera pode chegar a dois anos, como ocorre na neuropediatria, em que existe pacientes aguardando desde 2016 por uma consulta na Central de Regulação. A falta de atendimento pode agravar os problemas de saúde, causar lesões permanentes e representa até mesmo risco de vida aos pacientes.

Secretário-adjunto de Políticas e Regionalização da Secretaria de Estado de Saúde, Cassiano Faleiros confirma que o índice de cobertura pediátrica em Mato Grosso é a metade do que preconiza a Organização Mundial de Saúde - que indica o mínimo de 20 médicos por 100 mil habitantes. Isso é um indicador de que há crianças que não estão sendo assistidas e que falta acesso à saúde.

Com uma das maiores demandas e poucos médicos especializados, a neuropediatra é apontada como um dos gargalos, mas também são poucos os pediatras especializados em cardiologia, cirurgia, genética e endocrinologia, entre outros. Para o gestor, como se trata de falta de médicos, não há o que fazer para resolver a fila de espera por atendimentos especializados. “A criança é acompanhada por um pediatra geral, até que se consiga uma consulta com o especialista”.

Para melhorar o quadro, Cassiano aponta a necessidade de adoção de várias medidas. Primeiro, ele considera necessário uma política educacional e de saúde pública voltada para a formação de mais médicos nas áreas em que há demanda. Também considera importante o estímulo para que haja mais programas de residência médica (especialização) no interior, onde a situação é mais grave. Depois, diz ser necessário melhores condições de trabalho e remuneração.

Foi o que aconteceu com o pequeno Leonardo, de seis meses. Prematuro, os problemas iniciaram ainda na maternidade pública, onde exames necessários não foram feitos. Depois, a demora em conseguir um retinólogo resultou na perda total da visão do olho esquerdo, conforme conta a mãe, a atendente de caixa Iara Ribeiro da Paz, 25. O diagnóstico foi recebido na semana passada, quando a criança passou por consulta médica com o especialista no Hospital Universitário Júlio Müller, em Cuiabá, depois de meses de peregrinação.

Abalada pela notícia, Iara acredita que se não fosse a demora em conseguir um especialista, o filho não perderia a visão. Nesta semana, Leonardo vai passar por uma cirurgia no olho direito, na tentativa de recuperar parte da visão e evitar que fique completamente cego. Mas o procedimento não é garantido. “É muito descaso. Agora o problema já está avançado. Se não fosse a demora isso podia ter sido evitado”, desabafa. Iara conta que teve muita dificuldade e ficou cerca de três meses tentando conseguir um retinólogo para avaliar Leonardo. Como a família é de Terra Nova do Norte (647 km da Capital), mãe e filho ficam hospedados na casa de uma prima, quando vem para Cuiabá. “Desde a primeira consulta o médico (de Terra Nova) falou que era urgente e precisava de cirurgia. O pedido foi para a Central de Regulação e lá ficou”.

A previsão era que a consulta de Leonardo só fosse realizada daqui seis meses. Mas a mãe saiu de sua cidade e foi até a unidade onde, depois de muita luta, conseguiu a avaliação e, com o diagnóstico da gravidade, o agendamento da cirurgia.

Carência

A atuação dos pediatras no Estado em subespecialidades amplia a defasagem de médicos com este perfil profissional. Esta é a avaliação da presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM), Maria de Fátima de Carvalho Ferreira. Ela admite que, apesar de ser a segunda área com maior número de profissionais (atrás da clínica médica), há carência de pediatras, principalmente em subespecialidades.

Segundo informações do CRM, apenas cinco cardiopediatras atendem todo o território mato-grossense. O mesmo vale para outras subáreas. É o caso da reumatologia que tem uma profissional; neuropediatria, quatro profissionais; cardiopediatria, com cinco; nefropediatria, com seis; e dos 15 médicos especialistas em cirurgia pediátrica para atender o estado - sendo apenas três no interior do estado e os outros 12 concentrados em Cuiabá e Várzea Grande.

“Olhando só os números (absolutos) podemos supervalorizar a quantidade de pediatras, mas como eles estão divididos em outras áreas de atuação, com poucos profissionais em cada uma dessas subáreas, acaba havendo uma carência de profissionais para atender a população. É o que acontece com os cirurgiões pediátricos, que é uma área em que somos carentes”, explica.

Cada Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal deveria ter um cirurgião pediátrico, por exemplo, conforme a presidente do CRM. “Em Cuiabá, temos seis unidades de UTI Neonatal e aqui existe esse tipo de profissional, pois aqui estão a maioria dos cirurgiões pediátricos. Mas, no interior, nem todas as unidades tem (essa especialidade)”.

Sobrecarga

Único profissional no estado que atende na área de genética pediátrica, Marcial Francis Galera aponta que falhas na rede de saúde levam a uma sobrecarga das especialidades. Cita que muitas situações poderiam ser resolvidas por um pediatra geral, sem a necessidade de uma conduta mais específica. “Tem que mandar para o especialista somente os casos em que realmente existe necessidade”, alerta.

O geneticista explica que é comum, por exemplo, pacientes com Síndrome de Down serem encaminhados para uma consulta com ele. No entanto, nem sempre existe necessidade. “Nem todo paciente (com a síndrome) precisa passar por um especialista. A maioria das consultas tem condição de ser feita por um pediatra geral. Esse erro de encaminhamento sobrecarrega os atendimentos”.

A presidente do CRM considera que é preciso melhorar o aproveitamento dos especialistas, tanto na rede pública, como na particular. Segundo ela, existe uma cultura de se procurar direto um médico especializado, quando o atendimento deve começar por um pediatra geral. “O pediatra deve fazer a primeira avaliação e encaminhar o paciente só se não for possível resolver a situação”.