21/03/2018 13:38

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Paulo César Desidério - Redação Pioneira

Foto: Mídia News

Depois de muito negar os diversos convites do ex-colega de senado, hoje prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, a ex-senadora Mato-Grossense Serys Slhessarenko aceitou filiação ao Partido Republicano Brasileiro (PRB) em 2015, após conversas com o presidente da sigla, Marco Pereira. Antes disso, Serys ainda teve passagem rápida pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), mas sua bagagem política foi toda construída nos 20 anos em que esteve no Partido dos Trabalhadores (PT).

“O PT me deu 20 anos de mandato. Conquistei em 20 anos três mandatos de deputada estadual com 4 anos cada um, que dá 12 anos; e um mandato de senadora de 8 anos; ou seja, 20 anos de mandato sem nenhum dia sem mandato. Terminava a meia-noite e 8 da manhã eu estava assumindo o mandato. Isso aí eu tive dentro do PT”, recorda.

Questionada na segunda parte da entrevista exclusiva concedida à Pioneira (a primeira você pode conferir aqui), sobre o que a levou a deixar o Partido dos Trabalhadores, Serys foi sincera e relatou tudo o que aconteceu nos bastidores que lhe levou a tomar a decisão de desvincular-se da sigla a qual construiu sua trajetória na política.

“A nível nacional eu tive algumas confusões com o Zé Dirceu e outros. Como o Zé Dirceu caiu na CPI do Mensalão, eu era senadora e queriam que eu participasse da CPI, aquelas histórias. Eu não quis ir. Porque para você ir a uma CPI, você vai lá para defender ou atacar. Você não vai lá para ficar olhando para as nuvens. Eu não podia ir para lá defender uma coisa que eu não sabia. Eu nunca ouvi falar em Mensalão, nunca ouvi falar que estavam distribuindo dinheiro para ter apoio. Eu nunca ouvi falar, eu não sabia. Me neguei a ir e aí já comprei confusão a nível nacional”, relatou.

Outro problema citado por Serys foi a nível estadual. Este, em decorrência dos desentendimentos com a cúpula nacional, após não defender Zé Dirceu na CPI do Mensalão. A ex-senadora tentaria reeleição, mas foi preterida em convenção do partido e ficou de fora daquela corrida eleitoral.

“Quiseram me atacar e não me deixaram ser candidata a senadora. Eu liderava as pesquisas, eram duas vagas e eu liderava as pesquisas da eleição. Eu para a reeleição e o Blairo [Maggi, ex-governador, hoje Ministro da Agricultura] e ele na primeira eleição para senador. Quando eu menos esperei, era avaliada como 8ª melhor senadora dos 81, não por instituto daqui ou dali, lá por um instrumento nacional bem conceituado que avalia por uma série de critérios. Eu estava entre os 10 melhores e levava o 8º lugar. Então, eu achava que eu estava muito tranquila, os prefeitos elogiavam muito meu trabalho. Não tinha onde eu fosse que não elogiavam. Eu batalhei muito por Mato Grosso”, lembra, ao citar feitos como os do projeto Luz para todos (que levou energia elétrica para cerca de 125 mil pessoas na zona rural), viabilização de torres de telefonia celular para mais de 50 municípios, recursos para projetos especiais em ministérios, entre outros.

“A gente sentia que a população queria que a gente continuasse. De repente, o PT me barrou na convenção estadual. Eu perdi por 1 ou 2 votos na convenção e fiquei fora. Tinha gente que dizia que eu tinha que entrar na justiça, mas eu falei que não. Política é política e justiça é outra coisa. Eu não entrei, mas fiquei fora e logo eles pediram minha expulsão. Veio a eleição, disseram que eu não fiz campanha para o candidato do PT e eu falei ‘Poxa, o cara me derrotou de forma vil na convenção, eu fiquei quieta. Não fiz campanha contra, mas também não fiz a favor”, conta.

Nas palavras da ex-senadora, o referido candidato perdeu aquelas eleições “violentamente”. Tradicionalmente o PT não costuma ter grande aceitação no estado de Mato Grosso. Serys foi a exceção do partido no estado, assim como Ságuas Moraes (hoje deputado federal).
“Por princípio estaria ele eleito federal [deputado] e eu senadora, mas não quiseram, então ficou muito pior. Tentaram me expulsar, entrei com recurso a nível nacional e o nacional não deixou me expulsar. Passado um tempo, começou o zunzunzum de que iam pedir minha expulsão de novo e eu pedi a desfiliação, porque eu não podia ser submetida a tanta humilhação”, disse.

Após quase 14 anos no Palácio do Planalto, o PT pouco a pouco foi sofrendo uma derrocada. As eleições de 2016 gerou duros resultados ao partido, que ficou com a imagem arranhada, principalmente após o governo Dilma e os diversos casos de corrupção aos quais membros da sigla aparecem no centro de investigações, como o chamado 'Petrolão', que foi o caso propulsor da Operação Lava Jato, deflagrada pela Polícia Federal em Março de 2014. Segundo Serys, muita gente boa deixou o partido, mas muitos também permaneceram.

“O PT tem uma militância aguerrida na base. Tem gente raçuda, tem gente guerreira, tem gente séria. Muitos como eu se desgostaram, mas saíram. Muitos daqueles que ficaram é gente boa, é gente de luta, é gente que tem propósitos firmes”, afirmou.

Autora da Lei da Delação Premiada, Serys reconhece que seu ex-partido cometeu muitas falhas. Questionada se a sensação foi de traição nos bastidores do Partido dos Trabalhadores, Serys concordou. Porém, ressaltou que tudo faz parte do “jogo político”.

“Posso dizer que sim, porque para mim era inesperado aquilo ali. Para mim era certo, eu trabalhei tanto, as pessoas queriam que eu continuasse, era tanto apoio que vinha de todo lado e eu levei um susto. Então, as pessoas diziam ‘você foi traída’ e eu também achava. Mas, por outro lado é o jogo político e ele é muito ruim muitas vezes. As pessoas não medem consequências para pisar, para conquistar o poder, para passar o trem por cima e passam mesmo. É um jogo que a gente até entende, pode até não gostar e achar errado. Mas é um jogo (...) de puxar meu tapete eu entendo, porque olha que já puxaram”, declarou.