18/12/2016 09:45

Quantidade de visualizações: 158

Rádio Pioneira com Assessoria

Foram conhecidos nesta semana, em cerimônia realizada no Auditório Elis Regina, em São Paulo, os 20 estudantes vencedores nacionais da 5ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, realizada pela Fundação Itaú Social em parceria com o Ministério da Educação (MEC) e com coordenação técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). A aluna Giulia Martins Vilela Silva, da escola 04 de Julho, da cidade de Campo Novo do Parecis, no Mato Grosso, foi vencedora na categoria crônica com o texto “E livrai-nos do mal” e orientada pela professora Elizandra Alves Pereira da Silva Souza.

São cinco ganhadores em cada gênero literário - artigo de opinião, crônica, memórias literárias e poema – selecionados entre os 152 finalistas que vieram à capital paulista. Vinte e oito professores foram premiados pelos melhores relatos de prática.

Desde o lançamento desta edição, em fevereiro, até a tarde desta terça-feira, foram dez meses de envolvimento de alunos e docentes com a produção de texto, escrevendo sobre o tema “O lugar onde vivo”. O programa teve a adesão das redes públicas de ensino de todos os estados brasileiros e de 4.874 municípios e recebeu mais de 170 mil inscrições nas categorias literárias.

Ao todo, foram enviadas mais de 50 mil redações divididas em quatro gêneros literários, de acordo com as séries: Poemas para alunos de 5º e 6º anos do Ensino Fundamental, Memórias Literárias para 7º e 8º anos, Crônica para 9º e 1º do Ensino Médio e Artigo de Opinião para os estudantes de 2º e 3º anos do Ensino Médio. Considerando as oficinas realizadas em sala de aula das quase 40 mil escolas inscritas, foram envolvidos mais de 5 milhões de estudantes.

“A festa de hoje premia um grande esforço de todos em prol do ensino da Língua Portuguesa no País, da formação do professor para a didática da produção de textos, do despertar do gosto do aluno pela escrita e da mobilização das equipes das escolas e das redes para que tudo isso aconteça”, comemorou a superintendente da Fundação Itaú Social, Angela Dannemann.

Nesse período, eles viveram momentos diferentes e especiais, à medida que avançavam nas diversas etapas de seleção dos textos. Quinhentos estudantes e seus professores chegaram às quatro semifinais realizadas em São Paulo, Porto Alegre (RS), Fortaleza (CE) e Salvador (BA). Conhecer uma nova cidade, ir à praia, assistir a uma peça de teatro, visitar um museu ou uma exposição, foram experiências inéditas para muitos deles, que puderam também conhecer e interagir com pessoas de diversas localidades, compartilhar suas histórias e descobrir os vários sotaques.

Os alunos vencedores, assim como seus professores receberam a medalha de ouro, um notebook e uma impressora. Suas escolas serão contempladas com dez computadores, impressora, projetor multimídia, telão de projeção e livros para a biblioteca. Os professores autores dos relatos de prática vencedores também levaram para casa um notebook.

Para além do concurso, o Programa tem o objetivo de aprimorar a didática dos docentes de Língua Portuguesa para desenvolver competências de escrita em seus alunos e contribuir com a melhoria do ensino público. A Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro conta com a parceria da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e do Canal Futura.

Números da Olimpíada:

Redes estaduais: 27

Redes Municipais: 4.873

Escolas inscritas: 39.662

Inscrições nas categorias literárias: 170.244

Textos enviados: 50.600

Alunos impactados por meio das oficinas de texto: aproximadamente 5 milhões

Confira o texto na íntegra:

E livrai-nos do mal

Aluna: Giulia Martins Vilela Silva

Gênero: Crônica

Você com certeza já ouviu falar do Velho Oeste. Cidades inóspitas, com ruas desertas, poeirentas, marcadas principalmente pela carência da lei. Lugares, onde aconteciam combates armados ou não, brigas de bar, assassinatos banais, entre outras calamidades. Você pode até achar que isso é coisa do passado, mas é porque não conhece a minha cidade.

Aqui tem Fórum, Ministério Público, Polícia Militar, Delegacia Civil, entre tantos outros órgãos que trabalham pela segurança e ordem pública, no entanto, nada tem sido suficiente para controlar as ondas de assaltos desmedidos que assolam esta cidade. São inúmeros e dos mais variados graus, oscilando desde o embaraçoso ladrão de galinhas, que já nos dizia Rui Barbosa, a homéricas organizações criminosas, com sugestivos nomes ligados ao cangaço da clássica obra Os sertões, de Euclides da Cunha.

Ultimamente, nada tem escapado aos ataques da bandidagem. E nós, mocinhos da história, vivemos presos, trancafiados em nossas próprias casas com medo de sermos o próximo alvo desses impiedosos vilões. Acha que estou exagerando? Você irá mudar de ideia num piscar de olhos, quando eu te disser que num prazo de seis meses roubaram em plena luz do dia, com fortes armamentos, bancos, correios, metade do comércio, fazendas, além de incontáveis celulares nas portas das escolas.

Mas nada poderia ser pior que o último acontecimento. Eis que numa noite, estávamos na igreja, o único lugar desta cidade onde achávamos que reinava a paz, fazendo as tradicionais novenas de Páscoa. Como sempre, minha mãe chegou cedo e se colocou lá na frente. Eu, mesmo entediada de ir pelo sexto dia consecutivo, estava lá, com toda força, foco e fé.

Lá pelas tantas, percebi que algumas pessoas começaram a elevar a voz e colocaram as mãos para cima. Como a igreja estava cheia, imaginei que fosse o fervor da oração, que empolgava os cristãos e assim se exaltavam no louvor. Cheguei a pensar: “Que bom que há tantos incansáveis e veementes fiéis”, comecei a me sentir envergonhada da pouca crença que estava manifestando. Abaixei a cabeça e tentei me concentrar. Afinal, aquelas pessoas precisavam de muita paz para receber as vibrações celestiais.

Ledo engano! Só descobri o que realmente estava acontecendo, quando uns homens armados e com capuz no rosto se aproximaram. A adrenalina correu em minhas veias, meus batimentos cardíacos se tornaram audíveis, agarrei-me a minha mãe como uma criança indefesa. Agora todas as orações que havia aprendido na vida saíram da minha boca em um sussurro, como uma suplica para que tudo acabasse bem, pediram tudo que tínhamos. Lá se foram correntes de ouro, celulares, e até os terços. Dá pra acreditar?! E como comumente ocorre, os ladrões saíram ilesos.

Foi o caos. Ficamos perplexos. Até a igreja? Este lugar sagrado, que havia ser usado para confessar os pecados? Agora é lugar também de cometê-los? É mesmo a barbárie.

No momento, você deve estar pensando que vivo numa cidade grande, daquelas de noticias apavorantes de televisão. Mas não! Minha cidade é pequena, afastada dos grandes centros, mas como é conhecida por sua alta produção de grãos, ela chama a atenção de forasteiros que vêm assombrar e causar pânico ao povo judiado dessa triste realidade, que antes via apenas em filmes de faroeste.

E como nesses filmes, eles levam mais que nossos pertences, levam nossa dignidade, nossa segurança e nossa fé. Resta-nos apenas rezar, mas agora de portas fechadas.

Professora: Elizandra Alves Pereira da Silva Souza

Escola: Escola Municipal 04 de julho – Campo Novo do Parecis (MT)