03/12/2014 15:37

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Da Redação

Por Elissandro de Souza Vieira*


Ao invés de aproximar as pessoas e mobilizá-las para a efetivação de causas comuns, o uso alienado das tecnologias comunicacionais, em verdade, gera o distanciamento pleno entre as pessoas, pois o interlocutor é estigmatizado como uma mera coisa, desprovida de subjetividade. Fica claro, obviamente, que o problema fundamental da incomunicação humana não se encontra nos instrumentos técnicos, nos aplicativos, nas redes sociais, mas sim na falta de disposições éticas que permeiem as ações humanas nesse novo contexto cultural da sociedade de informação, que poderia talvez promover uma revolução política de escala global caso o amor pela liberdade e pela justiça fossem os motores do engajamento comunicacional dos indivíduos na era da virtualização das informações.


Talvez não haja nada mais escabroso do que estabelecer um projeto de conversa com uma dada pessoa e esta, em vez de olhar nos seus olhos e demonstrar efetivo interesse por aquilo que é dito, prefere estar concentrada nos aplicativos do seu aparelho celular, mantendo-se alheia em relação ao mundo que a rodeia. Esses dispositivos eletrônicos são verdadeiros fetiches tecnológicos, aos quais projetamos todos os valores superiores de nossa existência industrial e idolatramos como instrumentos sagrados, sem os quais seria impossível vivermos. Com efeito, que habitante da grande sociedade de informação consegue conceber hoje uma vida feliz e digna sem celulares ou internet?


A mais trivial ameaça de que não poderemos nos conectar ao mundo virtual ou de que uma dada rede social será extinta é capaz de nos causar pavores terríveis, profundas crises emocionais. Essa mesma indignação histriônica não é direcionada, por exemplo, pela defesa de causas sociais, políticas, culturais e ambientais muito mais nobres. O indivíduo autocentrado da era tecnológica é informado de diversos acontecimentos ocorridos pelo mundo, mas não conhece as contradições mais violentas que estão encrustadas no seio de sua própria sociedade, como a criminalização da pobreza, a repressão policial, os preconceitos de toda espécie. Esse indivíduo somente toma ciência de que seu mundo encantado das redes virtuais é sujo e feio quando seu celular é roubado por um infrator ou quando seu notebook pifa, impedindo-o momentaneamente de interagir com seus contatos virtuais.


Hoje por exemplo, muitas famílias se reúnem na mesa de jantar com cada membro entretido com seu apetrecho sagrado sem que haja qualquer comunicação mais substancial entre cada um. Nem mesmo conversas triviais ocorrem nesse momento que tradicionalmente servia de integração entre os convivas. Situações similares se repetem em diversas outras ocasiões da vida tecnológica do sujeito, havendo em comum o alheamento em relação aos problemas concretos da existência e ao exercício da introspecção. Viagens longas que poderiam servir para meditações são preenchidas com passatempos, pois o período ocioso motiva o tédio na consciência de quem é incapaz de serenar seu ânimo sem a necessidade de direcionar seus pensamentos para distrações momentâneas.


Na era tecnológica, perdemos definitivamente a capacidade de ouvir o outro. Com efeito, a sociedade individualizada da era tecnocrático-capitalista cada vez mais submete o sujeito ao plano da “idiotia”, ou seja, à vida autocentrada, incapaz ou desinteressada em dialogar com qualquer inteligência externa reconhecendo a importância e pertinência do seu discurso. Essa disposição “idiota” se manifesta em diversos aspectos da vida cotidiana atual, seja na nossa incapacidade de nos comunicarmos efetivamente com as pessoas por preferirmos os prazeres sensórios e entretenimentos dos celulares e aplicativos, seja pela sensação de conforto que preferimos manter encastelando-nos nas ilhas de segurança como se não houvesse a miséria no mundo real nos esperando com seu calor, sua sujeira, seu terror.


Apesar de todas as facilidades tecnológicas, nossas experiências comunicacionais mediadas por esses instrumentos não promovem a alteridade, apenas o silêncio interior, pois não queremos ouvir o discurso do outro, não valorizamos a arte da escuta, que exige paciência, acolhimento; tanto pior, muitas vezes somos autoritários fascistas, impedimos o outro de falar, de enunciar seu discurso, de transmitir suas idéias para o mundo.


Ocorre ainda o excesso discursivo do próprio usuário das redes sociais ou dos meios de comunicação como um todo, refletindo nesses suportes tecnológicos o que ele faz no seu cotidiano: fala sem parar, sem dar tempo de seu interlocutor responder ou mesmo tentar compreender a verborragia que o histérico enuncia com tanta voracidade. Nesse contexto não há comunicação, apenas enunciados solitários, monólogos, típicos das personalidades egocêntricas que não reconhecem nada além de seu próprio eu.


* Elissandro de Souza VieiraProfessor na Escola Estadual Antonio Hortollani;
Graduado em Licenciatura Plena em Pedagogia;
Com Especialização em Psicopedagogia, Educação Infantil e Séries Iniciais.
E Pós-Graduando em Política Sócioeconômica e Desenvolvimento no Departamento de Economia da UFMT.