28/11/2014 08:53

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Da Redação

Por Elissandro de Souza Vieira *


A democracia moderna nos tempos de ascensão tecnológica e comportamento humano social na divisão de classes econômicas vivem em regime que admite conflitos, também gera um certo teor de conflito que poderia não existir.


Quando um cargo é colocado em disputa, no âmbito político, aparecem candidatos. Ora, não é óbvio que sempre haja divergências, justificando candidaturas opostas. Mas é o que acontece. E, desde que os partidos foram considerados pilares da democracia representativa, a tendência deles é se diferenciarem, oporem-se. Então, a democracia não se limita a retratar divergências existentes na sociedade: ela aprofunda algumas, acentua-as, até mesmo as agrava.


Crítica parecida, por sinal, foi feita por sucessivos inimigos da “democracia dos partidos”, que é a principal forma moderna de democracia – desde os totalitários até o presidente francês de Gaulle e pensadores marxistas não autoritários. Mas o regime democrático também cumpre um papel mais reconhecido, mais alardeado, que é a menina dos olhos de quem o defende: ele aceita um teor de conflito na sociedade. Admite como normal que haja tensões entre pessoas ou grupos. Pela primeira vez na história do mundo, desobriga os humanos de viver num todo harmônico, equilibrado. Porque a harmonia é uma empulhação. Na Ásia, o discurso confuciano, assentado na idéia de que a sociedade se organiza como uma família leva a entender a discordância como traição. No Ocidente, a comparação do Estado a um corpo harmônico e saudável autorizou considerar o divergente um membro gangrenado ou doente, que deve ser amputado. Quem não obedece ao amor do príncipe não é apenas um divergente, uma pessoa livre para pensar de outra forma: é um traidor, um ingrato, um infame.


Diante dessa representação hipócrita das relações sociais como amorosas e da conversão do amor em autoritarismo – porque quem não retribui o amor do ditador obedecendo-lhe em todas as coisas atrai o castigo à democracia simplesmente deixa as coisas acontecerem. Discorda? É um direito seu. Haverá regras para dizer a discordância e, mesmo, submetê-las ao voto. A democracia cria procedimentos para garantir o direito de oposição – que também reduzem o teor dos confrontos.


Isso quer dizer que o conflito político não pode ser excessivo, e geralmente não é. Primeiro, porque a política é a substituição da guerra. Em vez de armas, brigamos com votos. Eles não matam. O adversário não é inimigo. Não está em jogo, ao contrário do que pretendia Carl Schmitt, a extinção do outro. Pelo menos não se quer sua eliminação física, como na guerra, como com o inimigo. Segundo, porque a política se dá com palavras, que manejam emoções que se expressam no voto. Lembremos o que é “voto”: o significado deste termo se vê em “votos de felicidade” ou de “feliz ano novo”. Votos são desejos. Expressamos nosso desejo em palavras, as do debate político, elaborando a decisão de votar em Fulano ou em Beltrano.


Assim, a democracia representativa de partidos gera necessariamente conflitos, mas não os deixa transbordar para a forma bélica. Ela exige um certo teor de conflito, mas não excessivo. Não vive sem conflito, mas morre se o conflito se exacerbar. Uma sociedade à qual se impõe uma autoridade de cima, como na Tailândia, há muito dominada pelo exército em nome do rei, não consegue manter a democracia mais do que poucos anos, até que um golpe suspende. Uma sociedade como a venezuelana, rachada de cima a baixo, fica à beira da dissolução dos laços sociais e políticos. Entre as duas pontas, há muitas posições possíveis, mas toda democracia tem conflitos, sim, e os administra.


Por isso saibamos expressar todas as divergências que sentimos – o caráter necessariamente conflituoso da democracia, mas que também saibamos que os conflitos não devem ser excessivos, que devemos respeitar quem de nós diverge, que devemos nos sustentar com palavras que construam argumentos. Porque, se o conflito for excessivo, a própria democracia fica em jogo ou se torna apenas um custo, deixando de oferecer as beneses que só ela proporciona.

* Elissandro de Souza Vieira
Professor na Escola Estadual Antonio Hortollani;
Graduado em Licenciatura Plena em Pedagogia;
Com Especialização em Psicopedagogia, Educação Infantil e Séries Iniciais.
E Pós-Graduando em Política Sócioeconômica e Desenvolvimento no Departamento de Economia da UFMT.