08/10/2014 15:54

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Do autor

Uma modalidade, cruel e violenta, se transforma, infelizmente, no modismo insensato e sufocante do universo complexo da internet. Mas a internet é apenas um instrumento utilizado para fins perversos de algumas pessoas. O Revenge Porn, a pornografia da vingança, acontece quando alguém posta na rede fotos íntimas de uma outra pessoa na qual se relacionou anteriormente. É a divulgação, geralmente feita por homens, de vídeos ou imagens íntimas de mulheres fazendo sexo, muitas vezes com o próprio divulgador, e tem como objetivo humilhá-las publicamente e fazer chantagem.


Conduzidos pela vaidade, por não aceitarem o término do relacionamento, dificuldade em lidar com a rejeição, ou por sadismo, a pessoa expõe com esta atitude todo seu lado sombrio e obscuro, demonstrando raiva e ódio, além do desejo em violentar o outro. O intuito é que estas imagens ou vídeos possam alcançar o maior número de pessoas na internet. Mas não é apenas o homem que pratica tal violência, as pessoas que replicam o email e mensagens com o conteúdo explícito também o fazem.


Não existe um perfil certo para que casais se filmem tendo relações sexuais. O que se observa é um número grande de adolescentes que aderem esta prática. Uma geração já imersa no acesso a tudo, do imediatismo, da supervalorização da imagem e das “selfies”, da necessidade de se autoafirmarem, se filmam em situações íntimas.


Para combater o revenge porn, um grupo de seis meninas, de 16 anos de idade, criaram um aplicativo de celular para enfrentar o slut shaming. A ideia do aplicativo é acolher as vítimas desse tipo de crime em um espaço que permite que elas conversem com outras vítimas, aprendam sobre como estão protegidas pela legislação e sejam convidadas a participar de grupos presenciais para combater o cyberbullying e a perseguição dos stalkers.


A propósito, slut shaming é o termo que surgiu da polêmica quando o radialista Rush Limbaugh criticou a estudante de direito Sandra Fluke, da Universidade de Georgetown, depois de ela ter defendido, em uma audiência pública no Congresso, que os planos de saúde cubram os custos com anticoncepcionais. Limbaugh, uma das vozes mais conhecidas nos Estados Unidos, disse que Sandra Fluke quer que os contribuintes a paguem para que ela faça sexo.


O ato de induzir uma mulher a se sentir culpada quanto à concretização de seus desejos sexuais e mantenha as expectativas tradicionais de seu gênero é um preconceito alicerçado pela misoginia. A arcaica concepção machista é baseada em que a mulher deve ser subserviente, concordata, submissa, obediente ao homem e principalmente, conter a expressão de sua sexualidade reprimida, o desejo ignorado e o prazer cerceado.


E ainda falamos de uma mentalidade deturpada e antiquada, enraizada na sociedade, onde homens medrosos tentam aniquilar a mulher autônoma, aquela que possui opinião, é livre de estereótipos, sabe comandar, possui iniciativa, opinião própria e que rompe paradigmas. Usam a roupa que quiserem sem se apequenar quanto ao julgamento dos outros. Mulheres questionadoras e que não são subservientes, sensualizam, se insinuam, provocam e nem por isso, querem bajulação ou cavalheirismo. Não se acovardam e enfrentam o mundo com determinação, dão vazão a seus desejos, soltam seu grito de prazer sem sentir vergonha ou culpa por isso. Não são peça de adoração, muito menos objetos sexuais, elas autorizam se querem ou não ser tocadas. Limite-se a admirar sua inteligência, desenvoltura e sutileza.


Se para o casal, se filmar em situações íntimas tudo bem, não vejo problema algum, o que é inadmissível é transformar estas fotos e vídeos em armas contra o outro. Isto é crime, além de um ato de mau-caratismo. Mas no que se baseia estas violências como o revenge porn e o slut shaming? O poder sobre a feminilidade e o aprisionamento das mulheres num sistema patriarcal e autoritário. Tenha outros parâmetros para contextualizar este argumento.


Você sabia que é muito comum a prática da circuncisão feminina em comunidades de países no Norte da África e no Oriente Médio. Objetivo? Condicionar a liberdade sexual das mulheres até ao casamento. O assunto é grave, de acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), em estatísticas divulgadas em 6 de fevereiro, no Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina, até 2030 serão 86 milhões de mulheres mutiladas.


Ninguém deve se sentir envergonhado por sentir desejo, fazemos escolhas e este é o nosso poder, não pertencemos a ninguém, pertencemos às nossas convicções. Se relacionar com alguém não é condição para viverem eternamente juntos, tampouco, manter contato íntimo com uma pessoa não confere a ela poder e posse sob o outro, portanto, não existe razão para se vingar ou sentir ódio.


* Breno Rosostolato é psicólogo e professor da Faculdade Santa Marcelina – FASM.